Aquecimento Global: uma "bola de neve" paradoxal

    O ano de 2020 tem sido marcado pela devastadora pandemia do "novo coronavírus" (COVID-19), a qual apresenta consequências extremamente significativas em diversos âmbitos da vida cotidiana. Ao afetar setores que vão desde a saúde pública até o comércio mundial, semelhante doença tem suscitado diversos questionamentos acerca da forma com que a sociedade contemporânea explora os recursos naturais do planeta. Sendo assim, não é de se estranhar que, desde o início da pandemia, a internet tenha se enchido de comentários e postagens, mesmo que essencialmente humorísticas, encarando a COVID-19 enquanto uma espécie de "resposta da natureza", que teria se cansado de nossas brincadeiras destrutivas.
    
    Enquanto lia alguns desses "memes" compartilhados por meus amigos nas redes sociais, me lembrei que comentários semelhantes também foram feitos no ano passado (2019), enquanto a Austrália enfrentava uma temporada de queimadas extremamente intensa. Com efeito, neste caso, temos consciência do principal fenômeno que contribuiu para semelhante destruição: o Aquecimento Global.

    Tendo isso em vista, e em virtude das recente onda de incêndios que vem ocorrendo no Pantanal, a postagem desta semana busca esclarecer as principais dúvidas que circundam o Aquecimento Global e, assim, ajudar a difundir a conscientização acerca desse problema ambiental tão polêmico e, ao mesmo tempo, tão visível.

    ⚠️O blog "Em casa com ciência" tem como principal objetivo a divulgação científica e, por isso, não abordarei os aspectos políticos e econômicos que envolvem o Aquecimento Global. Além disso, é importante destacar que todos os dados expostos nesta postagem apresentam embasamento científico - cujas fontes serão indicadas ao final da publicação.

    Aquecimento Global e Efeito Estufa: uma questão de intensidade

    Dentre as principais dúvidas que circundam o Aquecimento Global, destaca-se a diferença entre esse e o Efeito Estufa, de modo que ambos são, muitas vezes, encarados como sinônimos. Contudo, enquanto o Efeito Estufa é um fenômeno natural - e, inclusive, mostra-se essencial à nossa sobrevivência na Terra -, o Aquecimento Global é caracterizado pelo agravamento desse, causado, direta ou indiretamente, por ações humanas.

    O Efeito Estufa consiste em um fenômeno natural capaz de estabilizar as temperaturas médias globais e, assim, evitar a ocorrência de grandes amplitudes térmicas - isto é, a diferença entre a maior e a menor temperaturas registradas em um determinado local, em um certo intervalo de tempo. Consequentemente, caso não houvesse o efeito estufa, as temperaturas de todo o mundo se comportariam de forma semelhante às dos desertos: os dias apresentariam temperaturas razoavelmente quentes, ao passo que as noites - quando não há incidência direta de raios solares - seriam insuportavelmente frias.
 

     O Sol emite constantemente radiação eletromagnética para a Terra, sendo que aproximadamente 38,9% dessa encontra-se na "faixa visível" do espectro (luz), e 52,8% encontra-se na "faixa do infravermelho (IV)" - sendo, portanto, responsável pelo aquecimento da superfície terrestre. Sendo assim, parte do calor solar é absorvida pelo solo e pelos oceanos, e outra parte é refletida por esses, sendo "devolvida" para o espaço. Contudo, no meio de sua trajetória rumo ao espaço, parte desse calor é impedido de prosseguir em virtude dos gases do efeito estufa, os quais funcionam como uma barreira e, com isso, fazem com que uma maior proporção do calor emitido pelo Sol permaneça na atmosfera terrestre. Dentre os gases do efeito estufa presentes na atmosfera, os mais eficientes nessa tarefa são o dióxido de carbono, o metano, e, inclusive, o próprio o vapor de água!
    Se essa lógica ainda está um pouco confusa em sua cabeça, tente fazer uma analogia entre a Terra, cercada pelos gases do efeito estufa, e você vestindo seu casaco. Em um dia frio, caso você saia de casa usando unicamente uma camiseta e uma calça, o seu corpo irá perder calor rapidamente, e você provavelmente pensará: "Que frio!". Porém, caso você vista um casaco, esse atuará como uma barreira, inpedindo que o calor emitido por seu corpo "fuja" para o ambiente e, assim, fazendo com que você permaneça aquecido. Com base nisso, os gases do efeito estufa (assim como a atmosfera de forma geral) poderiam ser interpretados, de forma extremamente simplificada e informal, como uma espécie de "casaco da Terra". 

   Porém, assim como acontece quando usamos casacos muito grossos em um dia quente, o acúmulo excessivo de calor pode ser extremamente desconfortável e, no caso da Terra, pode ter consequências drásticas e irreversíveis. Dessa forma, o Aquecimento Global é causado pela concentração cada vez maior de gases do efeito estufa (principalmente de dióxido de carbono e metano) na atmosfera, de tal forma que uma maior quantidade de calor tende a ser mantida próxima da superfície terrestre. Semelhante aumento, por sua vez, tem sido causado majoritariamente em virtude da queima de combustíveis fósseis, de altíssimos índices de desmatamento e queimadas criminosas, bem como pela criação de enormes rebanhos de gado bovino.


    Os efeitos do Aquecimento Global em nossa vida cotidiana

    De maneira geral, ao procurarmos dados e projeções acerca do Aquecimento Global, os números indicados parecem, em uma análise superficial, pouco impressionantes. Contudo, não devemos nos enganar pelos números aparentemente "insignificantes", uma vez que pequenos aumentos na temperatura média global acarretam sérias consequências.

    Em 2019, por exemplo, pesquisadores do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) indicaram que um aumento de mais de 1,5 °C em relação aos níveis pré-industriais tem o potencial de gerar efeitos catastróficos. Ademais, de acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), um aumento de mais de 3,5° poderia ser responsável pela extinção de até 70% das espécies atuais.

    Não obstante, os efeitos do Aquecimento Global já podem ser observados, inclusive, em nossa vida cotidiana. Segundo reportagem do jornal G1, publicada em fevereiro deste ano, o mês de Janeiro de 2020 foi o mais quente já registrado. Além disso, de acordo com um estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research, o Aquecimento Global, caso não seja controlado, pode matar proporcionalmente mais pessoas do que doenças infecciosas como a malária, dengue, febre amarela e, inclusive, tuberculose.


    Uma conclusão realista

    Diante de tudo o que foi explicado e citado nesta publicação, é certo afirmar que as consequências do Aquecimento Global mostram-se extremamente sérias, e capazes de gerar consequências em todos os setores da sociedade. Talvez por isso, o estudo de soluções para esse problema envolve diversas polêmicas - relacionadas a aspectos políticos e econômicos extremamente delicados e complexos - que costumam inviabilizar a realização de ações realmente efetivas. 
    
    Mesmo assim, instituições como o IPCC continuam realizando esforços sob a forma de pesquisas e debates, visando conscientizar não apenas a população em geral, como também empresas e órgãos internacionais, acerca da evolução e dos efeitos das mudanças climáticas. Por isso, caso tenha se interessado pelo assunto e deseje se aprofundar mais, recomendo a página do IPCC na internet (disponível em: 
https://www.ipcc.ch/). Nela, você poderá ler sobre a história e os objetivos da instituição, bem como as últimas pesquisas e ações promovidas por essa.

    #ShowYourStripes: uma conscientização POP

    Com o intuito de promover uma maior conscientização acerca do Aquecimento Global, o cientista Ed Hawkins decidiu desenhar (literalmente!) os efeitos do Aquecimento Global em diferentes partes do planeta. Tais imagens, construídas com base em dados coletados entre os anos de 1901 e 2018, podem ser acessadas através do site https://showyourstripes.info/, onde você pode observar o aumento da temperaturas em diferentes continentes, países e capitais do planeta. 


    Esta publicação se baseou em informações extraídas das seguintes fontes:










Comentários

  1. Infelizmente, temos novas notícias desanimadoras :(

    "2020 é o ano mais quente na Península Antártica das últimas 3 décadas", Revista Galileu (04/10/2020):

    https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2020/10/2020-e-o-ano-mais-quente-na-peninsula-antartica-das-ultimas-3-decadas.html

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